Escultura de paisagem - Landart

 

 
 

Projecto de `Permaculture` Monte Novo Algarve, Portugal
Seguindo a consequência da convicção de Joseph Beuys de que viver a própria responsabilidade política de artista, cheguei à conclusão de que deveria instalar um projecto de acordo com a estética ecológica, em que, e do qual, poderia viver como numa escultura ambiental.
Isso, para mim, aparece como o verdadeiro acto político de cultura, mas também como uma obrigação da nossa fundação existencial.
Comprei uma área de mato no Algarve e alguns livros sobre Permaculture , arquitectura orgânica, tecnologia suave e comecei a desenhar, esculpir e a integrar as minhas visões, relacionando o conceito da estética da sustentabilidade entre as condições dadas pela minha matéria – o terreno.
Reflecti acerca do «estilo» como factor de harmonia com as características da paisagem local.



Os anos da transformação e construção deram oportunidades para muitas experiências de afirmação pessoal, também como a consciência de que a natureza de facto funciona como um sistema harmonioso e criei uma estrutura básica e sustentável para uma coexistência múltipla e integrada. Como pessoa urbana cansada da civilização industrializada, quis criar o meu próprio mundo, ter controlo da minha vida, independente e livre.
Pensei no que preciso: - ar limpo, boa água, terra, comida vegetariana, uma boa cama, abrigo para todos os tempos, divertimento e saúde. Assim, improvisei o primeiro abrigo estendendo uma vela em cima de uma figueira morta. Aí, dormia a sesta e também de noite, com o vento a cantar ao longo das colinas, sonhei para o cosmo.

Cheguei a pensar plasmar e moldar o terreno, criar a base para o futuro sustentável.

Criar uma escultura nestas dimensões, era uma experiência nova e um desafio à minha imaginação tridimensional. Os terraços retêm a água e fazem defesa da erosão.

Tive de mexer muitas rochas

Para construir muros

Foi uma experiência excitante, construir uma casa. Aprendi cena na escola de arte e sabia criar um espaço. A maior parte da construção fiz eu própria e aprendi bastante as técnicas, materiais e o uso dos apoios estruturais. Durante as obras fui continuamente confrontada pelo credo que não sou rapariga bonita, porque as obras não são do meu domínio. De facto não tive nenhuma experiência das coisas que fiz, só tive as instruções dos livros.

Para construir no projecto um sistema biológico, consultei o livro de Permaculture de Bill Mollison. Este sistema promete o mínimo de manutenção para uma diversidade máxima de vegetação e fauna.

Acabei de plantar a primeira árvore, quando o primeiro pássaro chegou para descansar.
Reciclei os pneus para construir uma barragem no vale

- e recolhi grandes montes de algas do lago para melhorar o solo. Reparei no perigo da luta química e mecânica contra as selvas, porque afecta gravemente o equilíbrio biológico.

Senti muito prazer em produzir fertilidade e tapei a terra com camadas fortes de palhagem. O que fez com que o cheiro da terra se tornasse mais intenso e vivo e eu podia imaginar toda a espécie de micro-sistemas a vibrar em cima  do solo e estenderem-se todos à volta da planeta.

Com o progresso da construção da horta, senti a vida chegar à instalação, e tudo era bem. Relacionei-me com todas as plantas.

A vida oscilou tranquilamente. Aprendi a viver sem conforto e luxo, ocupando o dia com a presencia própria. Gostei muito de me enfiar pelas plantas, cuidando um pouco aqui e além, andar comendo e ser centro das coisas. Aprendi a tomar nota dos sinais anunciando acontecimentos: o tempo muda com a lua cheia e acontece muito vento. Quando as andorinhas voam baixo e os sapos migram, não preciso de regar.
Reparei que um enxame de abelhas passa pelo mesmo túnel térmico, na mesma hora de manhã todas as primaveras e pequenos turbilhões de ar tocam na varanda no mesmo tempo do verão, e levam coisas da mesa para longe. Admirei-me quando descobri um percevejo do meu terreno num outro continente longe daqui, e um coleóptero guincha como um rato! Quando vi o mundo pelos olhos de uma andorinha, vi só multidões daqueles insectos alimentares da andorinha. Descobri muitos animais hiper interessantes, que não conhecia e também que animais bravos não são agressivos.

O projecto era uma cena onde experimentei as minhas ideias. Admirei Buckminster Fuller e fiz um “croqui” de uma cúpula geodésica, inventei as juntas e comecei a construir. O resultado será a prova do caso.

Empurrei-me a penetrar num montão de dúvidas para dar passos monstruosos da autocracia. A instabilidade da estrutura incompleta, reflectiu o meu estado psicológico.

O stress causado por esta ventura arquitectural, culminou numa alucinação esquizofrénica:
“Vão-me capturar” gritei, e quase saltei do telhado, como se a minha construção fosse um crime. Mas com a última porca fixa, a estrutura tornou rígida como uma rocha.

O sítio era um campo de experimento, invenção e especialmente descoberta. Redescobri as leis da física e com intuição e persistência instalei sistemas de energia solar, tratamento de água suja, irrigação, composto e plantação. Podia aplicar o meu jeito, fabricando coisas para mim própria e aprendi tocar um instrumento.

Tive exposta às forças elementares, mas aprendi a compreender que nós somos capazes de influenciar o meio ambiente para o melhor. Estou contente por ter construído este projecto numa zona árida, reflectindo em certa medida a harmonia e diversidade da natureza bem criada e eu própria ser formada por esta obra.

Uma paisagem de longa vida, produtiva e para si linda, talvez seja o melhor que uma sociedade pode herdar.
Citação: Bill Mollison


Técnica da energia suave.

FIM